Manifesto em relação ao concurso da área da saúde de Campinas

Este documento tem como objetivo tornar pública nossa indignação acerca do concurso público 006/2009, realizado no último domingo 07/02/2010, para a alocação de vagas na área da saúde para o cargo de enfermeira (o), no município de Campinas.

É lamentável que uma cidade tida como vanguarda da saúde pública, berço da reforma sanitária, referência nacional em atenção básica escolha selecionar seus enfermeiras(os) através de uma prova totalmente hospitalocêntrica, focada na doença, em procedimentos e exames reafirmando o “biologicismo” e o “tecnicismo” que tanto buscamos superar para o melhor atendimento das necessidades de saúde da população.

A prova requisitou conhecimentos que não constavam no conteúdo programático previsto no edital, como a Lei Orgânica do Município de São Paulo e não a do Município de Campinas. Uma prova com erros de diagramação, siglas sem embasamento científico e sem espaço apropriado para anotar o gabarito.

Além disso, e o que mais nos indigna, não solicitou dos candidatos conhecimentos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), doenças de notificação compulsória, código de ética de Enfermagem, vigilância da saúde, epidemiologia, dengue, tuberculose, hanseníase, saúde da mulher e criança (puericultura, doenças da infância), estatuto do idoso, processo de enfermagem, saúde do trabalhador, entre tantos outros que consideramos de grande relevância na atuação do enfermeiro na atenção básica.

Consideramos que o conteúdo da prova desvalorizou diretrizes nacionais das principais políticas públicas de saúde desse país num município que busca, através de duas grandes universidades, reorientar a formação profissional em saúde, por meio de programas ministeriais como o Pró-Saúde, com ênfase na atenção básica e foco na promoção da saúde e prevenção de doenças.

Consideramos de suma importância os conhecimentos sobre clínica, administração de medicamentos e fisiologia humana, mas questionamos a falta de proporcionalidade dos conteúdos abordados.
Entristece-nos perceber que a prova não prima por conhecimentos relacionados à saúde coletiva, à saúde da família, ao Paidéia, e que, muito possivelmente, contribuirá para tornar as unidades básicas de saúde em pequenos hospitais como frequentemente já acontece.

Buscamos compreender se esse fato representa um mero despreparo ao encomendar a prova, desconhecimento de quem a fez ou se foi algo intencional: selecionar enfermeiros que não precisam entender de saúde coletiva.

Parece-nos uma revelação do descaso com o SUS, com a atenção básica e com a compreensão de saúde determinada e condicionada socialmente.
Por fim, registramos aqui nossa total indignação em relação a este concurso considerando-o um desrespeito à história da saúde pública, à construção do SUS-Campinas, aos candidatos, aos profissionais da área da saúde e, principalmente, à população campineira.
Convidamos todas (os) que lutam pelo SUS-Campinas e que compartilham esse descontentamento a apoiarem esse manifesto.

Assinam esse Manifesto as seguinte entidades: Diretório Central dos Estudantes da Unicamp,Centro Acadêmico de Enfermagem da Unicamp, Centro Acadêmico de Enfermagem XXXI de Outubro – USP/SP,Executiva Nacional dos Estudantes de Enfermagem, Coletivo de Trabalhadores da Saúde João de Barro, Sindicados dos Médicos de Campinas e Região.

Campinas, 23 horas do dia 08 de fevereiro de 2010.

imprima aqui o abaixo assinado