Nos dias 11 e 12 de março acontecerá o processo de consulta para reitor. A cada quatro anos, estudantes, funcionários e professores votam em um dos “candidatos” e assim escolhem quem será responsável por conduzir a universidade nos próximos anos. Será simples assim??
Na verdade, o processo não escolhe o reitor, mas apenas elabora uma lista com três nomes que é enviada para o governador que é quem (autocraticamente) bate o martelo sobre a escolha, independente do resultado da consulta. Outra amostra dessa falta de democracia é a desproporção entre os pesos dos votos das categorias na consulta. O voto é divido da seguinte forma: estudantes 1/5, funcionários 1/5 e professores 3/5. Ou seja, em que pese a consulta não passar de mera encenação, esta ainda reproduz uma falta de democracia que se vê em todos os órgãos colegiados (comissões de graduação, por exemplo) da Unicamp.

Paulo Freire foi professor titular da Faculdade de Educação da Unicamp durante 11 anos depois de sua volta do exílio (1980-91).
Uma boa experiência aconteceu em 1981, quando entidades da universidade elaboraram um processo de consulta com paridade (sem diferença no peso dos votos) entre as três categorias. O intelectual Paulo Freire obteve a maioria de votos em uma consulta com 11 nomes, mas o último colocado da consulta, José Aristodemo Pinotti, acabou escolhido pelo governador (à época, Paulo Maluf).
O projeto político que será implementado na universidade definirá os rumos de professores, funcionários e estudantes igualmente. Por mais que os estudantes passem uma média de 4 anos na universidade, enquanto professores e funcionários passam mais tempo, a formação do estudante é a razão de ser da universidade. Um processo de consulta que expõe projetos políticos ao debate democrático não precisaria fazer prevalecer a opinião de uma categoria sobre as outras. Somos pela paridade entre as categorias na tomada de decisões!
A universidade que conhecemos é fruto de uma luta conjunta de estudantes, funcionários e professores. Por isso, no momento em que se apresentam duas candidaturas para o processo de consulta devemos nos ater aos rumos que esses projetos apontam. Fernando Costa, professor da FCM, é o herdeiro do projeto da reitoria. O atual vice-reitor vem dentro da política do “café com leite” da reitoria, em que o vice assume a reitoria gestão após gestão. Dessa forma, ao invés de um “novo horizonte” para a universidade, como afirma seu programa, o que se pode esperar é uma continuidade dos atuais rumos da universidade. Por outro lado, a professora da Eng. de Alimentos, Glaucia Pastore, apontada como candidata de oposição e de “sensibilidade” não faz nenhuma ruptura com esse projeto. Ambos defendem uma expansão inconseqüente de vagas, que traz prejuizo à qualidade do ensino. Na Unicamp, o processo de criação e o propósito do novo campus de Limeira materializa esta política. O novo campus nasce sem estrutura adequada. Com falta de laboratórios e com número reduzido de professores. Os “candidatos” vão ainda além e apontam como futuro para a educação o projeto de ensino a distância (EaD), que serve ao aumento dos índices de ingresso sem a devida qualificação do ensino.
Pesa ainda que nenhuma das candidaturas aponta como questão o financiamento público da universidade, pelo contrário, afirmam que há problemas no financiamento e que a solução é buscar recursos nas empresas privadas, vendendo o conhecimento desenvolvido na universidade e deixando de lado o conhecimento dedicado à melhoria direta da sociedade.
Entre um peixe de água doce e um peixe de água salgada, não queremos peixe. No fim das contas, entre um “novo horizonte” e mais “sensibilidade” resta um projeto de sucateamento e desestruturação da universidade pública que não responde ao projeto defendido pelos estudantes: uma universidade (verdadeiramente) pública, gratuita e de qualidade.
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